Música, literatura, poesia, idéias, arte, batera, percussão e porrada, se precisar!

"Como sabe que sou louca?", indagou Alice.
"Deve ser", disse o gato,
"ou não teria vindo aqui".
(Alice no País das Maravilhas)


domingo, 27 de maio de 2007

Os Grandes do Tambor I - Milton Banana



Aê, galera!!!

Com esse negócio de agora cantar e tocar violão, na produção de meu cd solo – Yan Kaô e a Construção, Cantos de Descanso e Trabalho que pode até ser duplo, caramba!! – eu quase me esqueci de que originalmente eu sou um percussionista e que a bateria ainda é minha paixão primordial. E aí, minha gente, não adianta disfarçar, teorizando sobre campo harmônico, tonalismo e o cacete, que o negócio mesmo é reproduzir no couro o tum-tum do coração. Por isso, homenageando o chão da casa, vou postar alguns – tem um monte – de álbuns de bateras aqui no blogue, pra galera curtir e lembrar que é na cozinha que a gente começa a entender mais sobre a vida – da mamadeira à encoxada na namorada, onde habitam os pratos e fogo na mistura, a bateria e a percussão são essenciais para o paladar da boa música... começando, com um dos pais da bateria brasileira: Milton Banana, o cara era uma elegância na mão e no método, obrigatório!!

Milton Banana (que não era Milton, nem Banana, mas Antonio de Sousa) foi o baterista de todos os momentos decisivos da criação da bossa nova. Quando começou como profissional, aos 20 anos, em 1955, em conjuntos da noite de Copacabana, como o de Waldir Calmon, na boate Arpège, e o do grande Djalma Ferreira, na boate Drink, era como se ainda estivesse esquentando os tambores. Mas, no ano seguinte, tocando na boate Plaza com o trio do pianista Luizinho Eça (no qual o contrabaixista era Ed Lincoln), é que as coisas começaram a acontecer. Por causa de Luizinho, ainda mais jovem do que Milton, a pequena boate do Leme começou a receber, na alta madrugada, uma série de rapazes e moças dispostos a dar canjas.

Um deles era o quase desconhecido João Gilberto, de volta ao Rio depois de uma longa temporada fora da cidade, para refazer a cabeça. Ali, tarde da noite, quase que apenas entre amigos, cozinhou-se a "batida diferente" da bateria, a partir da nova batida de violão trazida por João Gilberto. Foi este quem sugeriu a Milton a divisão parecida com a do violão, feita com a baqueta no aro, e insistiu para que ele tocasse baixinho, usando mais as escovinhas. Dito assim, pode soar como se, em última análise, João Gilberto tivesse criado também a batida da bateria - mas o fato de ter encontrado em Banana um ouvinte atento e capaz de reproduzir o que o outro queria não impede que Banana tenha também contribuído com idéias próprias. Efetivamente, era ele o baterista no momento do parto da bossa nova.

A prova de que, em janeiro de 1958, ele talvez fosse o único a dominar a batida, está nas faixas "Chega de Saudade" e "Outra Vez", com Elizete Cardoso, para o LP Canção do Amor Demais. Naquela ocasião, o violão de João Gilberto foi gravado pela primeira vez como acompanhante, mas o baterista era Juquinha - e, se o violão de João Gilberto naquelas faixas já era tipicamente bossa nova, a bateria não era. Pode constatar-se isso agora, ao se ouvir o disco relançado em CD pela Movieplay. Mas a bateria de Banana entraria em ação seis meses depois, em julho de 1958, quando João Gilberto o chamou para a gravação do seu próprio 78 RPM de Chega de Saudade na Odeon. Banana estaria nesta faixa e também Desafinado (igualmente gravado como single no fim daquele ano) e nas faixas que completariam o LP Chega de Saudade, gravadas em 1959. A lição básica estava toda ali.

Em meados de 1962, com a bossa nova estabelecida e já tendo formado toda uma geração de cantores, arranjadores, violonistas e bateristas, Banana deixara de ser o único. Mas foi ele o convidado por Tom Jobim para formar (com Otavio Bailly ao contrabaixo) o trio que acompanharia o próprio Tom, João Gilberto e Vinicius de Moraes no histórico show "Encontro", na boate Bon Gourmet - a única vez em que os três se apresentaram juntos, por mais de um mês, e em que foram lançadas canções como Garota de Ipanema, Samba do Avião, Só Danço Samba, O Astronauta e Samba da Bênção. Nesta época, a bossa nova já era um fenômeno internacional, mas as tentativas de reproduzi-la no exterior eram canhestras, por causa da bateria. Os gringos estavam produzindo dezenas de discos oportunistas e suas capas podiam dizer "bossa nova", mas o ritmo era o do velho samba, do cha-cha-cha e até do mambo.

A verdadeira exportação da bossa nova só começou quando seus criadores passaram a viajar e a mostrar in loco como se fazia. Encerrada a temporada no Bon Gourmet, João Gilberto, Baden Powell, Os Cariocas e Milton Banana fizeram uma semana na boate 686, em Buenos Aires, apinhada toda noite de músicos argentinos (entre os quais, Astor Piazzolla).

Em novembro, Banana acompanhou Tom e João Gilberto no famoso concerto do Carnegie Hall, em Nova York. Ficou com eles por lá e foi o baterista do histórico LP Getz/Gilberto, gravado em março de 1963 - e, esta sim foi a maior aula de bateria de bossa nova já dada em todos os tempos, praticamente grátis, para todos os bateristas do mundo. Mas o disco só seria lançado um ano depois e, antes disso, Banana seguiu viagem, com João Gilberto, o pianista João Donato e o contrabaixista Tião Neto, desta vez para a Europa. Tocaram na Itália e na França e expuseram os ouvidos europeus, ao vivo, à nova batida.Nos anos seguintes, de volta ao Rio, Banana poderia ter usufruído o conforto a que os inventores e mestres de seu ofício deveriam ter direito. E, durante algum tempo, isso pareceu possível: de 1965 a 1975, gravou oito deliciosos LPs com seu trio, onde provava que era um baterista para qualquer preço, capaz de fazer até aquela metralhadora mais associada a seu amigo Edison Machado. Mas, então, a música brasileira já seguia outros rumos - todos hostis à bossa nova. Banana lutou enquanto pode e depois se entregou. No começo dos anos 80, teve de resignar-se a tocar para ninguém ouvir, em inferninhos suspeitos de Copacabana.

A década de 80 não foi pródiga de trabalho para bateristas de bossa nova no Brasil e, quando as coisas começaram a melhorar nesta década, já o encontraram com a saúde abalada. E de forma particularmente cruel para um homem da sua profissão: um grave problema circulatório fazia com que, desde pelo menos 1992, ele estivesse ameaçado de ter uma perna amputada. Um show em seu benefício chegou a ser feito no Rio, naquela época. Banana tratou-se e conseguiu adiar a operação. Voltou a trabalhar esporadicamente e ainda cumpriu um fim de semana com um trio no novo Beco das Garrafas, em Copacabana. Mas, em pouco tempo, a cirurgia ficou inevitável. Banana perdeu uma perna em abril de 1999 e, um mês depois, morreu de enfarte.

Em seu velório, no Cemitério São João Batista (RJ), chamava a atenção dos amigos presentes uma coroa de flores com os dizeres "A Milton, a quem o Brasil não homenageou nem reconheceu nunca. Ass.: todos os músicos do Brasil".

Estou postando os álbuns mais significativos do homem em sua carreira solo. A obra dele com outros artistas fala por si em sua grandeza e importância. Acho que é uma boa amostra...

Batucaí, gente:

1963:


Baixaki!



1965:






Baixaki!




1965:





Baixaki!


1966:


Baixaki!


1968:



Baixaki!

1970:




Baixaki!

1971:
Baixaki!

1976:



Baixaki!!

1977:


Baixaki!


1979:



Baixaki!!

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Habemus Sith!!


Eu não ia comentar, ia deixar prá lá, mas lembrei-me da história abaixo, que aconteceu há muito tempo atrás, quando eu era puro como ouro:
- Vai, meu filho, acorda!!! Levanta!!
- Mas são 5 horas da manhã, mãe!!! O que foi?
- O Papa, meu filho. Ele vai chegar!
- Mas aqui, em casa, assim? Pensei comigo mesmo, espantado...
- Não, filho, ele vai passar lá na 23 de maio.
Não havia pensado, havia apenas comentado e bem alto, minha indignação. Sono e religião misturados fatalmente dão em intransigência e um descaso com as questões mais filosóficas. Mesmo assim, comecei a me vestir, obediente à fé materna...
Lembro-me de nos juntarmos à multidão reunida no pátio da vila em que morávamos, no bexiga. Um português baixinho, o seu Manoel - claro!! - era o dono da pensão, e naquela hora funcionava como um líder religioso para todos naquela manhã fria... estavam todos bem vestidos.
- Cadê o pôster do Papa??? Gritou alguém.
- Táqui. Pegou a camiseta?
- Tô com ela, pô!
E assim fomos todos, descendo a rua rumo à 23 de maio. Eu, um perfeito zumbi, sem consciência de tanto sono e com um frio de gelar os ossos, fui praticamente empurrado pelos outros moleques da vila, filhos do português, mais acordados, com bafo de chocolate e bolachas, algo raro na mesa do café da manhã da minha infância.
Súbito, vi a multidão esperando o homem, lá embaixo, no vale que dava prá 23 de maio, a avenida tomada por milhares de pessoas, com bandeirinhas, apitos e bonés, num mar de fé na mídia e na mística de alguém, que para mim, era apenas o fundo de uma bandeja que mais tarde, quando me tornei músico, cansei de socar no meu set de percussão. Tirava um belo som do Papa João Paulo II para horror de muitos.
Nos acomodamos perto de uma barricada da polícia, bem embaixo do viaduto da Rua Pedroso.
- Seus pecadores!!! Filhos do demônio!! Gritou um evangélico isolado em meio à multidão. Um herói. Todos riam, ignorando o homem grisalho com a bíblia na mão. O homem gritava tanto que ficava vermelho. Quando danou a pular, um guarda sorridente falou:
- Vocês têm inveja porque não têm Papa. Foi o balde de água fria. Cabisbaixo, o crente saiu de fininho, subindo o pequeno morro e indo para sua casa, planejar a vingança que os evangélicos teriam mais de dez anos depois, roubando muitos católicos para seu front.
De repente, uma movimentação, lá longe, gritos, palmas, um êxtase!! Ele estava chegando, o Papa-móvel. Palmas, chapéus voando, histeria, lágrimas e mulheres desmaiando. Parecia um show de rock, meu Deus, um inferno!!!
Jamais me esquecerei da cena, guardada em minha mente como a mais cínica das memórias: um segundo, levou o papa-móvel ao passar pela multidão. O som inesquecível: VVVVVVVRRUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMM!!! Deveria estar a uns 120km, lembro-me apenas de algo vermelhinho, um pedaço de túnica - ou seria um chapéu de Papai Noel? Quiçá o gorro do Saci? Passou mais rápido que a minha fé na igreja, o papa-móvel. Todos ali, estáticos, tentando entender... vimos ou não vimos? Era ele mesmo? Sim, era ele. Então alguém se lembrou:
- Vamos ver na TV, gente!!!
Mais correria, as pessoas se dispersando, se atropelando...
Novamente alguém disse:
- Como ele é lindo, que paz, que calma...
- Ele é um santo...
Outros:
- Já me sinto melhor da úlcera!!
- Jamais me esquecerei desse momento!!
Ninguém gostou quando eu disse que não tinha visto nada, que foi muito rápido.
- Tem de levar esse menino na missa, dona Adelina! Disse o português ameaçador para minha mãe, que me deu um tapa ardido de frio quando comecei a gargalhar, pensando em como seria a gira de Exu, mais à noite...
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Não ia falar nada, ia deixar quieto, mas vai lá...
Fui numa padaria, no intervalo de uma gravação...
Muitos se aglomerando, prá ver a chegada do "Papa novo". Confesso que foi só o que vi na TV, depois acompanhei as notícias pelo jornal e pelas revistas.
- Quero quatro pãezinhos queimados - nada de pãozinho cru, chefe!! - manteiga e um quarto de pó, daquele moído na hora ali.
- Olha lá, o ôme chegando...
- (Tédio...) E quero um leite c...
- Nossa, ele até que desce as escadas do avião bem rápido, né?
- Quanto é essa rosquinha?
De repente, um rugido de indignação futebolística. Em uníssono, bêbados, clientes (sim, bêbados são clientes também, mas é que tinha um pessoal tomando lanche), vagabundos e outros, curiosos gritaram:
- Mas como?? Ele não vai beijar o chão?!!???
- Sacanagem, pôrra!! Desprezou nosso país!!
- Beija!! Beija!!
Nada de beijo. Alguém argumentou que aquela era uma prática do papa anterior, mas ninguém ligou. Ficou uma mágoa no ar.
Sorrateiramente um bêbado baixinho, inchado, sujo e cambaleante chegou na frente de todos. Olhou fixamente prá tela, colocou as mãos nos joelhos, balançante. Piscou duas vezes. O Papa começava seu pronunciamento... O homenzinho apontou o dedo, bem em cima do nariz do pontífice.
- LADRÃO!!!
Risadas se misturaram com indignação.
- Não chama o Papa de ladrão, Zé!!!
- O ôme é santo!!!
- LAAAADRRÃÃÃÃOOOOO!!! ELE É LADRÃO!!!
Deixaram prá lá. O balconista entregou meu pacote. Quando abri, haviam dois pãezinhos brancos, um sabonete e uma lata de ervilhas.
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Não, eu realmente não ia falar nada dele. Confesso que não vi, não quis ver - na TV - o lixo falsificado de informações sobre esse homem, mas estava lá, no centrão, pagando as contas, quando vi a imensa multidão na Líbero Badaró. Pensei comigo mesmo: se vi um, na minha infância, mesmo que por segundos, por que não ver dois? Afinal, quanto valem dois segundos de Papas? Quantos Papas se vêem ao vivo numa vida?
Fiquei lá, esperando, esperando e pude constatar a profundidade da ilusão de nossos dias: não há papas, não há mídia, não há exército nem policiais nem Rede Glóbulos. Há apenas poder. Força bruta silenciosa, violência invisível, truculência psicológica na multidão, no tamanho do guarda, na câmera do reporter, nos militares nas motocicletas, no dinheiro gasto, na submissão da massa. Tudo por um fio. Tensão disfarçada em fé. Tesão escoado na procura precoce da esperança de alguém único que compreenda os mistérios de Deus no mundo. Lembro-me dos rostos puros de freiras e freis franciscanos anônimos. Lembro dos óculos do fiel da corrente carismática. E tinham uns caras vestidos de cruzados, de botinas, verdadeiros skinheads de Deus, posturalmente antagônicos à imagem de Jesus Cristo. Quem?
Finalmente o Papamóvel passou. Devagar, desta vez. Vi bem o rosto do homem. Não baixei os olhos, queria entender, queria saber de seu coração. Como você nos vê aí de cima? Saiba então que entendi parte do plano... A massa, os prédios, a chuva de papéis picados, as bandeiras, os gritos, os soldados, as armas, tudo muito familiar. Sim, senhores, nada de religiosidade, nada de espiritualidade, nada de fraqueza, matéria, matéria, matéria. Ali, naquele momento, em todos os segundos, o pontífice reina, por um único motivo: Assim como o Império Galáctico do cinema, o Império Romano ainda vive, por dentro dos sapatos escarlates!!
Habemus Sith!!
Bom, falei. Vi dois papas em minha vida... e torço realmente para que venham logo o terceiro, o quarto, o quinto...