
Conheci poucos caras inteligentes e completos no que tange à escrita como Orlando Toseto Júnior, meu bróder de longa data. Já disse a ele que vou arrumar-lhe uma editora, colocar uma arma em sua cabeça e obrigá-lo a escrever um livro. Abaixo, uma entrevista que ele deu prá alguém aí, e que exprime bem a capacidade do homem. Com vocês, Orlando Toseto, o homem que matou o tempo, e que ficará para sempre:
1. Que livro você está lendo?
“O vento nos salgueiros”, de Kenneth Grahame, e “Crack up”, de F. Scott Fitzgerald (póstumo e editado).
2. Lembra do seu primeiro livro?
Lembro. Você não perguntou qual foi, mas eu digo: a adaptação de Monteiro Lobato para “Peter Pan”.
3. No Brasil, sabemos que a leitura não é um hábito da população em geral. Quantos livros, em média, você lê por mês?
Discordo da afirmação: se lê pouca literatura, pouca poesia. Mas quem leva debaixo do braço um manual do Access, o Código Penal, o Metrô News ou um gibi da Mônica faz o quê com eles? Lê, ora. Não tenho média mensal de leitura.
4. Você tem um gênero favorito? Qual?
Não tenho. Leio de tudo.
5. Alguns escritores, além de grandes artistas, são vistos como “seres superiores” por alguns leitores. Você tem ídolos escritores? Quais?
Acredito que um grande escritor é sim um ser superior, sem ironia nem aspas. Nessa categoria de seres superiores, ou ídolos se quiser, boto, e aqui é tudo muito óbvio, Cervantes, Eça de Queirós, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Lewis Carroll, Jorge Luís Borges, Proust, Flaubert, Tchékhov e mais um cento de etecéteras.
6. Você distingue o escritor pelo gênero - poesia, conto, romance, etc - ou acredita que escritor é escritor e ponto?
Varia. Há escritor que é bom em tudo, e há os que são bons numa coisa só. Drummond, por exemplo: nada do que escreveu fora da poesia presta.
7. A internet pode se transformar em uma ameaça para a leitura de livros?
Não. Mas eu tinha entendido o termo “leitura”, até aqui, como o ato lato de ler, e não como a ação estrita de “ler livros”. Não há ninguém preocupado com a ameaça que a internet talvez represente para os jornais, as revistas, as bulas de remédio, os quadros de avisos, o correio elegante?
8. Se você pudesse, como acabaria com o analfabetismo no Brasil e como implantaria o hábito de leitura?
Não sei se é possível acabar com o analfabetismo, já que ele não se resume à incapacidade de leitura e escrita: há muita gente que lê e escreve desembaraçadamente que é analfabeta incurável. José Roberto Pereira, por exemplo. Ou Marcelo Mirisola. E não “implantaria” (palavra técnica e horrorosa) hábito nenhum. Aliás, a expressão “implantar hábitos” é um oxímoro. Há no mundo uma expectativa generosa, mas injustificável, de que a leitura, por si só, seja capaz de promover maravilhas na consciência de um indivíduo. Em alguns sim, de fato; mas a maioria das pessoas lê por necessidade, para a satisfação dos quesitos “informação” e “como fazer”. Esses, cujo nome é legião, jamais desenvolverão o “hábito da leitura”, e aliás é um erro achá-los estúpidos por causa disso. O hábito surge sozinho. Lê quem quer.
9. José Saramago declarou recentemente que sempre será comunista, embora saiba que este é um assunto ultrapassado. Um escritor deve manter para sempre seus valores, ou pode mudar de opinião?
Opinião é uma coisa, valor é outra. Mudar de opinião é corriqueiro: eu já achei que o socialismo é um jeito ótimo de criar uma sociedade justa. Já mudar de valores é, creio eu, chocante e raríssimo: não conheço quem tenha abandonado a justiça em prol da injustiça, por exemplo. É portanto um erro a gente achar que a defesa saramaguenta do comunismo seja apego a um valor. É apego a um sistema de idéias que (acredita ele), se aplicado, promove ou “implanta” os valores que ele defende. Uma das coisas mais duras de aprender, e que na verdade nunca se aprende direito, é como compreender quando nossas idéias contrariam nossos valores, e mudá-las. Também existe, evidentemente, quem não tem valor nenhum, apenas opiniões; esses mudam tudo, fazem o que querem e dormem como anjos. Contam-se aos bilhões.
10. Uma frase para o Dia do Escritor:
Que grande bobagem é haver um “dia do escritor”.
Clique aqui aqui para ver o blogue dele...
Agora, alguns textos da fera:
Kinema
Em 1972, São Paulo era para mim “a cidade”, o centro velho. Saíamos a pé da Maria Marcolina, no Brás, aos domingos, cerca de oito e meia da manhã. Íamos a pé. Kinema. Subíamos a Rangel Pestana, passando pelas porteiras, e logo à esquerda havia o Cine Piratininga, “a maior sala do Brasil” (hoje é um estacionamento). Antes, no Largo da Concórdia, à nossa direita ficava o Teatro Colombo, no mesmo lugar em que hoje se ergue a Caixa Econômica; e a uma quadra, na Firmino Whitaker, esquina com Saião Lobato, o cine-teatro Oberdan (onde Bill Halley e seus cometas tocaram numa tarde de sábado, nos anos 50, e a platéia ainda achou forças para quebrar umas cadeiras, e que hoje é loja da Zelo).
Se a gente descesse a Celso Garcia no sentido do Belenzinho, teríamos a cinelândia do Brás diante de nós. Em frente à Pirani (falida em 1972 – em 1989 ainda havia, pendurado numa parede, um anúncio de “baralhos a Cr$ 3,00”) havia o Fontana, quatro salas com a melhor programação (hoje um pedaço é igreja, outro é shopping de outlets com barbearias e outras besteiras). Na mesma calçada da Pirani, quase esquina com a Bresser, havia o Cine Universo, onde vi com a minha mãe, num sábado aterrorizante, “Marcelino Pão e Vinho”, e depois o primeiro Super-Homem. Mas antes do Universo, na esquina da Carlos Botelho com a Costa Valente, havia o cine-teatro onde era gravado “Astros do Ringue”, cujo nome eu nunca soube, e do qual resta, além de um suntuoso balcão externo, uma lira estilizada no telhado. É um belo posto de gasolina.
Passando a Bresser, e do outro lado da avenida, estava o Cine Roxy. Hoje é a sede da Universal, que aproveitou e arrasou todo o lado esquerdo do quarteirão para fazer um estacionamento a céu aberto. E, no quarteirão seguinte, esquina com João Boemer, havia o infausto Cine Brás, que tem lugar de proeminência nas minhas futuras memórias pornográficas, e que, depois de cinema, foi casa noturna, bailão, e hoje parece ser centro de estoques de algum magazine.
Mas nós não descíamos a Celso Garcia, e sim subíamos a Rangel, pra “cidade”. Passando a Praça Clóvis, geralmente entrávamos na Roberto Simonsen onde, quase esquina com a Venceslau Brás, do ladinho mesmo do Solar da Marquesa, havia um cinema cujo nome também não lembro, e que também foi transformado em estacionamento. Dali contornávamos a Sé, e havia duas opções: Rua Direita, com o Viaduto do Chá, ou XV de Novembro, passando ao lado do Martinelli. Se o domingo fosse sem pressa, descíamos a Direita, passávamos pela Praça do Patriarca, ganhávamos o Chá, e entrávamos pela Barão de Itapetininga, onde havia o Cine Barão, na mesma galeria que abrigou a saudosa Wop Bop Discos (já não há mais nenhum dos dois). Se, porém, escolhêssemos atravessar o Anhangabaú, sobre o Buraco do Adhemar, teríamos quase de frente pra nós o Cine Cairo (em cuja passarela, no quarto centenário, vários hollywoodianos de sucesso desfilaram, e que passa hoje o trivial variado do sexo explícito) e, já na São João, quase em frente aos correios, teríamos à nossa esquerda o Cine Saci (mesma programação). Ainda não havia as salas dos cines Avenida e Las Vegas, rebentos recentes do sexo, e que hoje lá estão, exibindo o vigor possível.
Então cruzávamos pelo Largo do Payçandú (atenção: é essa mesma a grafia correta, graças a Mr. Amauri, meu primeiro chefe, e seu histérico dicionário de locações) e, esticando o pescoço, víamos à direita o suntuoso saguão aberto do Cine Paysandu (escrito erradamente, e que hoje é um bingo). À esquerda, estavam, pela ordem, o Art Palácio (sexo explícito), a saída das três salas do Olido (que ainda resiste) e, passando a Dom José de Barros, o Ritz, com seu salãozinho turco (ou de chá, com cadeirinhas de ferro – fechado e para alugar). Na Dom José, só alguns metros pra cima, havia e há o Cine Dom José (onde, numa inesquecível semana santa em 1983, havia três cartazes de filmes – à direita, “As C... de C... Que Dão O C...”; à esquerda, “Pervertidas e Depravadas”; e, no meio, a “Paixão de Cristo”).
Depois atravessávamos a Esquina do Caetano tendo à nossa esquerda, e no mesmo quarteirão, o Cine Regina, o Ipiranga com suas duas salas, o Marabá, com sua imensidão e o balcão (que hoje está fechado), e o Cine República (sexo explícito). Se a gente seguisse mais pra frente, tinha chance de ir parar no Cine Copan, em forma de anfiteatro e que hoje abriga mais uma malfadada igreja (não sem antes passar pelo Cine São Luiz, escondidinho naquela galeria que dá na Praça Dom José Gaspar - fechado). Ou, se contornássemos a Praça da República e descêssemos a Vieira de Carvalho, saíamos no Largo do Arouche, bem perto do Cine Arouche, onde, no inverno de 1990, acompanhado por um LP do Sam Cooke, vi o “Cinema Paradiso”, pensando nela e chorando (hoje, é boate de strip-tease). Mas não; nós seguíamos a São João no rumo do cine Metro e sua matinée, com Tom & Jerry e Pato Donald.
Podíamos continuar andando pela avenida e ver, mais à frente, o Cinespacial, redondo e com quatro telas (fechado), e depois o Comodoro, com sua tela de Cinerama (fechado). Mas não íamos. Ficávamos no Metro (que hoje também é igreja), sem pipoca nem refrigerante (e sem nem pensar nisso). Eu era menino de 5 anos, fitava vidrado a tela onde o gato levava pauladas estrondosas e gritava escandalosamente, sentindo a dor do bicho e esperando meu pai rir pra rir depois. Meu pai, um sisudo senhor italiano que acreditava nas ruas e ia de paletó a uma matinée dominical. Que começava por volta das dez, então era a conta certa de um homem de cinqüenta e dois anos e um menino de cinco andando uma hora e meia por avenidas e ladeiras.
Se fôssemos à avenida da Liberdade, chegaríamos ao Cine Niterói, onde passavam todas as produções japonesas que importavam (e todas as que não importavam também – virou uma espécie de dancing para orientais). Ou na R. Silva, ver o prédio neoclássico do Cine Liberdade (que é um restaurante desses de quilo, misturado com academia de judô). Mas era raro irmos lá; íamos mais ao Pari, esquina da João Teodoro com a Avenida Vauthier, onde havia o Cine Rialto (na esquina diametralmente oposta funcionou, anos depois, O Templo, boate punk da primeira hora). No Rialto vi, em 77, com o Pedro, “Guerra nas Estrelas”, e alguma coisa do Mazzaropi com minha mãe, um que tinha aquela música sertaneja que rezava assim: “Nestes versos tão singelos / minha bela, meu amor, / vou cantar para você / o meu sofrer, a minha dor / Eu sou como o sabiá / quando canta é só tristeza / Dá vontade de chorar”. Dava mesmo, e o povo chorava direitinho. De cinema o Rialto virou casa de danças do Zé Bettio, forró, e finalmente loja de pneus. Hoje não sei mais o que é.
Minha cidade é cruel. Há dúvidas de que seja mesmo uma cidade, e não prédios e ruas que brotam a esmo e estão perenemente de costas uns pros outros, esquecidos, isolados, sem relações. Ruas que não se falam, prédios que não se bicam, assassinatos anônimos. Deve ser uma besteira a gente se entristecer com a morte de um cinema, com a desaparição de uma sala escura onde apertamos um peitinho, onde roubamos um beijo de língua e depois saímos à rua, todos anchos, quase exclamando “eu também beijei uma mulher”, ou onde simplesmente ficamos de cabeças encostadas chupando balas Van Melle. Tudo muda na cidade cruel sem mais lamentações. As casas em que nascemos viram pó; as escolas se transformam em lojas, as lojas em prédios, os prédios em nada. Andamos por ruas quase escuras que na verdade não conhecemos, e que não nos conhecem.
Tudo se move na cidade cruel. Nós nos movemos. Kinema.
O PORQUE DO JOGO
O porque do jogo:
o súbito e manso silêncio,
argamassa para as frestasdo espírito.
Eu penso mudo e vasto e confuso.
Ainda respondo por meus dedos,
ainda sou obliquamente desonesto,
ainda conecto atos
num arremedo de ordem
com um fingimento de método.
SOLIDÃO
A solidão gruda nas roupas e deixa cheiro.
Gente só tem cheiro de solidão, aroma de abandono.
A mulher carrega uma bolsa de brim enorme, muito cheia.
Anda balançando por causa do peso.
Passo a seu lado e a ouço dizer:
"Minha filha... você pra mim morreu".
Que é da filha? Não está lá.
Morreu de morte decretada,
de morte sofrida na carne da mãe solitária,
que fala sozinha e que,
aposto, de hora em hora torna a matá-la.
Pra onde ela vai com aquela mala cheia?
Se andasse pelo mundo à toa,
isso não me espantava.
Ela e sua mala,
sua vida, seu sentido.
Eu muitas vezes me sinto mais perdido que ela.
Eu, como ela, me iludo.
Me descuido às vezes do tamanho de tudo,
fico surdo à voz de fora,
fico mudo pro mundo,
fico com cheiro de gente só.
Quem me vê logo diz.
Mas, a sério, quem me vê?
Todo mundo só vê o próprio nariz.
DESPERTAR
Meus dias começam todos do mesmo jeito.
Abro os olhos, ouço o chuveiro,
lá embaixo na rua é o portão que abre e fecha,
e saltos de homens e mulheres
em periódicos clique-cliques na calçada.
Abrir os olhos: operação delicada.
Começo suspirando, termino morrendo,
abro-os por fim ao horror opulento das muitas horas de luz.
Muitas horas de luz!
De que mundo estou falando?
O último sonho ainda me ofusca.
Do chuveiro não vem canto.
É como se chovesse numa rua vazia,
num mundo sem idade nem ninguém.
Como se o cano chorasse sobre os ladrilhos
a ida da última alma.
E que é dos canos sem almas?
Jazo acordado, atento, astuto, ainda semimorto.
O dia me viola. A hora me estupra.
Engravido de atos que vou despejar mais adiante
com todas as dores de Eva, com os peitos de Eva,
sem alento de serpente,
sem maçã.
Meu dia vem perfumado.
Bolhas descem-me à consciência,
afogado no mínimo necessário.
Economicamente afogado.
Bóio naquele minuto.
Flutuo no mundo que começa
sem Deus que o evite, sem marcha à ré no sol.
Meu cérebro é macio.
Ainda estupefato - meu sangue corre!
Águas em mim se movem, bichos vivem, cheiro mal! - ouço passos.
Tudo me impressiona,
daqui não se ouvem pássaros.
Pode um milagre ser estúpido?
Se pode, sou.
Passos vêm, já não me engano,
o dia ininterrupto se ergue com fome,
sou demanda de seu bucho para atos solenes
que não me interessam.
Sento-me sobre a cama.
Por que é que não fumo?
A meu lado um vazio de horas,
um frio de quem
há muito se foi.
Sinto entre gelos desiguais uma forma
que não é a minha.
Desperto de vez.
Em breve levanto.
Todo dia era dia de pranto, fosse a gente chorar à toa.
Era o que faltava.



















