Música, literatura, poesia, idéias, arte, batera, percussão e porrada, se precisar!

"Como sabe que sou louca?", indagou Alice.
"Deve ser", disse o gato,
"ou não teria vindo aqui".
(Alice no País das Maravilhas)


domingo, 17 de junho de 2007

Os Grandes do Tambor IV - Nenê


Há alguns anos atrás eu e o Roberto Lerner, grande batera, tivemos umas aulas de bateria com o Nenê, em sua residência. Mais do que aulas, tivemos repetidos choques a cada vez que o homem sentava no banquinho. Chegou um momento em que nossa ficha caiu e entendemos que para chegar na técnica perfeita que ele havia adquirido, somente com a vivência que ele teve (exemplificando, nos mostrou uma técnica de rulos à velocidade da luz, onde ele movimentava os polegares prá frente e prá trás, um coisa completamente louca e sua técnica de bumbo “antigo”, onde no samba ele abafava a segunda nota nos deixou estarrecidos!!) e a partir daí decidimos simplesmente chegar na aula e pedirmos para que ele simplesmente tocasse prá gente ver, pois nada como a osmose visual e auditiva para a absorção musical!!! Funcionou.
Vimos o homem tocar maracatus impossíveis, tamanha a independência, Sambas fantasmagóricos, onde percebia-se o 2 por 4 no ar e não no som que era ouvido... funks com estranha marcação forte no surdo... ineditismos rítmicos que nos fizeram repensar o instrumento e nossa realidade percussiva. Fora as histórias de quem viu, viveu e conheceu de perto lendas como Hermeto Pascoal, Elis Regina, Egberto Gismonti... gente, como é bom conhecer músicos de verdade!!

Nascido em Porto Alegre, Realcino Lima Filho ou Nenê como é conhecido, começou a tirar seus primeiros sons de um pequeno pandeiro de plástico, daqueles de brinquedo, o que foi incentivado por seus pais, bom vivants e amantes da música. Então o menino passou a acompanhar seu pai em festas, sempre acompanhado de seu pandeirinho. Dado algum tempo o pai decidiu que o pandeiro não iria levar o menino muito longe e como bom gaúcho, comprou-lhe um acordeom e o fez estudar. A princípio não gostava do instrumento passando a se interessar por ele ao ouvir Breno Sauer e Canela, no rádio.

Por volta dos quinze anos de idade entrou para um grupo de música regional que tocava em bailes, programas de tv e na zona, como a maior parte dos bons músicos brasileiros. O grupo era muito bem organizado e cada integrante se encarregava de uma tarefa, instrumentos, roupas de apresentação, contatos. Quando a banda se desfez, Nenê que já estava de olho na bateria, na hora da partilha conseguiu o que queria. Passou a estudar freneticamente a bateria e uns dois anos mais tarde partiu para São Paulo acompanhado de um contrabaixista e o pianista Cidinho, hoje radicado em Nova Iorque.

Com a dissolução do trio e as contas da pensão na Rua Aurora atrasadas, decidiu acompanhar o guitarrista Almir Stockler, o Alemão, tocando piano, na boate Black and White. Nenê já havia estudado piano amadoristicamente, mas jamais tinha se apresentado. Entre os diversos trabalho em boates, conheceu o pianista Aloízio Pontes, com quem aprendeu muito de piano e jazz. Foi ele também quem apresentou Nenê ao Hermeto Pascoal. Com a ida de Airto Moreira, então baterista do Quarteto Novo, para os Estados Unidos, Nenê se candidatou à vaga. Hermeto lhe deu a sacola de percussão do Airto e um disco do Quarteto. Nenê foi para seu quarto na pensão e varou a noite tirando as músicas do disco até a hora da audição no dia seguinte.
Com todas as músicas decoradas, Nenê foi imediatamente aceito, passando a integrar o histórico quarteto. Com a dissolução do quarteto, Nenê voltou a tocar na noite e um dos grupos que integrava passou a fazer sucesso recebendo um convite para apresentar-se no Japão. Pouco antes de partir encontrou mais uma vez Hermeto que o convidou a entrar para seu novo grupo. Imediatamente ligou para o empresário do grupo e depois de muita discussão acabou convencendo-o a não levá-lo para o Japão. Mudou-se para o Jabur, no Rio, onde morava Hermeto, para entrar na rotina de oito ou mais horas diárias de ensaio. Com o mestre, gravou dois discos antológicos, Zabumbê-bum-a e Hermeto Pascoal ao vivo em Montreux, excursionando pela América Latina, Europa e Ásia.

Dois anos mais tarde é convidado por Egberto Gismonti a integrar sua Academia de Danças. No mesmo ano viaja para Europa para gravar o álbum de Egberto, Sanfona, lançado pelo selo ECM. Participou da turnê de divulgação do disco, apresentando-se em 45 países, sendo o último show em Paris onde instalou-se e viveu pelos próximos doze anos. Lá grava seu primeiro álbum Bugre eleito pela conceituada revista francesa JazzHot como um dos dez melhores discos do ano. Fato que lhe abriu portas e conquistou o respeito dos franceses levando-o a tocar com os músicos mais representativos daquele país. Lá escreveu também um livro completo de ritmos brasileiros para bateria, lançado na França pela editora Zurfluh.

Na Europa participou de diversos trabalhos que incluem um convite para compor, arranjar e reger a Orquestra Nacional de Jazz da Dinamarca, com transmissão ao vivo pela rádio estatal, até a gravação de uma trilha sonora ao lado do guitarrista suíço Vinz Vonlathan. Em suas visitas ao Brasil tocava arranjava e compunha para o grupo Pau Brasil, junto com o qual compôs e apresentou a Ópera dos Quinhentos Anos, em comemoração à descoberta da América.

Nenê já deu algumas voltas ao mundo, acompanhado de formações de dar água na boca. Com suas próprias formações multinacionais (formada por músicos brasileiros, dinamarqueses, franceses) em trio ao lado de Hermeto ao piano e Arismar do Espírito Santo no contrabaixo, com Elis Regina, Milton Nascimento, e um quarteto formado por ele, Egberto Gismonti, Charlie Haden e o famoso guitarrista francês Michel Portal. Atualmente vem apresentando as músicas do álbum, Ogã , em que constam composições suas dedicadas à Itiberê, Airto, Moacir Santos e Egberto Gismonti.

Hermeto o considera o melhor batera do mundo, o que já nos faz bater a cabeça!

Como vimos, esse Nenê, como todas as divindades... não é fácil!!
Aí embaixo, alguns exemplos de sua obra, magistral... Mais discos, na Bruxinha Maravilha!! Ah, não coloquei os discos dele com o Hermeto, porque o bruxo vai ter um post só dele!
Bugre: 1983



Ponto dos Músicos: 1984

Clikaki e escuta o homem!!
Solo de bateria: 2007

Clikaki e escuta o homem!!

Show Festa da Música -Opening NightBelo Horizonte, M.G.Lagoa Seca 25/05/2oo7


Músicas:

01 - Nenê Speaks (Nenê);
02 - Choro pro Cristovão (Nenê);
03 - Bataclan (Nenê);
04 - Sudeste (Nenê);
05 - Renascendo. (Nenê);
06 - Côco (Nenê);
07 - Nenê Speaks (Nenê);
08 - Lindolfo (Nenê);
09 - Correndo na frente (Nenê);
10 - Nenê Speaks (Nenê);
11 - Nenê's Solo/Aniversário do Arismar (Nenê);
12 - Juarez;
Nenê - Bateria
Alberto Luccas – Baixo Acústico
Írio Junior - Piano
Parte 2:

10 comentários:

Roderick Verden disse...

Caro Yan,
Notei que há muito V.Sa. está a procurar o disco do grupo russo Dialogue. Encontrei-o no blog "Prog not Frog". O disco se chama "I am a Man"(1982).
Link: http://tinyurl.com/2b59vg.
Boa sorte!

Soninha disse...

Ian,
Como admiradora de música brasileira de qualidade, sou frequentadora do Blog Abracadabra-LPs do Brasil há muito tempo.
Pude notar que você está postando todos os albums do Airto, Flora Purim e Nenê que são do blog da Bruxa do Vinyl. Os links são os mesmos e não vi nenhuma referência ao blog dela.
Ela sabe que você está fazendo isso?

Sonia Luz (Soninha)

Yan disse...

Cara Soninha, o nosso intuito é divulgar estes maravilhosos instrumentistas que por vezes são esquecidos por este Brasil. Nós referendamos ali nos linques os blogues de onde partem muitos dos discos. Para nós não faria sentido reupar tudo de novo, só para dizer que fomos nós que colocamos os discos no ar, como se isso não fosse um ato de admiração, mas sim de vaidade por um trabalho que é, ao nosso ver, tão somente de resgate. Além do que, tem muito álbum que nós mesmos postamos e pode vir quem quiser por aqui pegar e colocar nos seus blogues, sem precisar dizer uma vírgula de nossa pessoa. A atitude ácrata da internet permite isso, mas se é o caso de louvarmos a atitude da Bruxa, que muito admiramos, assim como o querido e poderoso Loronix, o simpático Deodato e meu bróder Diego Progshine, estão aí os nomes aos bois e peço desculpas se falhei. Embora, queira deixar claro, que tá lá, sim o memento e além disso: quem deve ser lembrado é o artista, acima de tudo. Um abraço e por favor, não azede nosso feijão lambendo a culé!!

Yan disse...

Ah, Roderick, vou mandar erguer uma estátua viking em sua homenagem!! Obrigado pela dica, hombre!!

Anônimo disse...

Soninha, é como diz o ditado, ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.
Ou você quer me convencer de que a Bruxa do Vinyl paga alguma coisa para os músicos e técnicos que gravaram essas obras? FALA SÉRIO !

Yan Kaô, se você vai fazer a sua Construção com tijolos dos outros ao menos poderia decorar com seus conhecimentos de percurssionista. Explique para nós, leigos, as riquezas destes tesouros que fazem deles tão especiais. Uma master class.

AAhhh,E MUITO OBRIGADO NENÊ E CIA PELA MÚSICA SENSACIONAL.

Abraços, Egberto Brasileiro Pascoal.

Yan disse...

Caro Egberto, obrigado pela idéia e incentivo. Vou ver se falo alguma coisa de percussão aqui no blogue e tão logo esteja melhor das pernas, vou colocar meus discos (meus mesmos, de minha autoria) por aqui, prá quem quiser daunloudar em qualquer blogue. A bruxinha é gente boníssima, mas tem gente por aí que gosta é de azedar a feijoada com a língua. Tudo bem. vão falar mal, mas vão ouvir bem!! Abraços e vem mais coisa pelaí!!

Soninha disse...

"Anônimo disse...
Soninha, é como diz o ditado, ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.
Ou você quer me convencer de que a Bruxa do Vinyl paga alguma coisa para os músicos e técnicos que gravaram essas obras? FALA SÉRIO !"

Claro que não ô Egberto Anônimo.
Mas o trabalho de ripar os vinys, tirar as pipocas, scannear as capas em 2 partes (já que a capa do vinyl não cabe no scanner) e postar merecem um mínimo de respeito.
Agora, esssa de que ladrão que rouba ladrão tem perdão, é bem típico de brasileiro .... pobre ... de espírito.

Sonia Luz (Soninha)

Bruxa do Vinil disse...

Salve Yan Exú !

Entre nós tá tudo certo. Concordo que "reupar" é desnecessário, mas confesso que achei legal vc fazer menção ao abracadabra-br nas postagens (foi gentil da sua parte, não só pelo trabalho que me dá, mas também para divulgar o blog desta boníssima bruxinha que vos fala. Obrigada !)

Soninha, obrigada pela opoio, por reconhecer os meus rips, e prestigiar meu blog, valeu!!!

Mas discordo totalmente da mensagem do Egberto Brasileiro Pascoal: Ladrão que rouba(ou pega) de ladrão, é receptador, e não tem perdão não. Sejamos menos "brasileirões" nesta hora !!
Quem me chama de ladra não sabe de nada...e muito menos merece ficar sabendo. Merece sim 100 anos de praga.


A Bruxa do Vinil tem seus mistérios, seus encantos e encantamentos...e tem um propósito que os medíocres não conseguem reconhecer.


Valeu Exú !!

Abração

:)

Anônimo disse...

Poderia repostar Bugre. obrigado

Anônimo disse...

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