Música, literatura, poesia, idéias, arte, batera, percussão e porrada, se precisar!

"Como sabe que sou louca?", indagou Alice.
"Deve ser", disse o gato,
"ou não teria vindo aqui".
(Alice no País das Maravilhas)


segunda-feira, 14 de maio de 2007

Habemus Sith!!


Eu não ia comentar, ia deixar prá lá, mas lembrei-me da história abaixo, que aconteceu há muito tempo atrás, quando eu era puro como ouro:
- Vai, meu filho, acorda!!! Levanta!!
- Mas são 5 horas da manhã, mãe!!! O que foi?
- O Papa, meu filho. Ele vai chegar!
- Mas aqui, em casa, assim? Pensei comigo mesmo, espantado...
- Não, filho, ele vai passar lá na 23 de maio.
Não havia pensado, havia apenas comentado e bem alto, minha indignação. Sono e religião misturados fatalmente dão em intransigência e um descaso com as questões mais filosóficas. Mesmo assim, comecei a me vestir, obediente à fé materna...
Lembro-me de nos juntarmos à multidão reunida no pátio da vila em que morávamos, no bexiga. Um português baixinho, o seu Manoel - claro!! - era o dono da pensão, e naquela hora funcionava como um líder religioso para todos naquela manhã fria... estavam todos bem vestidos.
- Cadê o pôster do Papa??? Gritou alguém.
- Táqui. Pegou a camiseta?
- Tô com ela, pô!
E assim fomos todos, descendo a rua rumo à 23 de maio. Eu, um perfeito zumbi, sem consciência de tanto sono e com um frio de gelar os ossos, fui praticamente empurrado pelos outros moleques da vila, filhos do português, mais acordados, com bafo de chocolate e bolachas, algo raro na mesa do café da manhã da minha infância.
Súbito, vi a multidão esperando o homem, lá embaixo, no vale que dava prá 23 de maio, a avenida tomada por milhares de pessoas, com bandeirinhas, apitos e bonés, num mar de fé na mídia e na mística de alguém, que para mim, era apenas o fundo de uma bandeja que mais tarde, quando me tornei músico, cansei de socar no meu set de percussão. Tirava um belo som do Papa João Paulo II para horror de muitos.
Nos acomodamos perto de uma barricada da polícia, bem embaixo do viaduto da Rua Pedroso.
- Seus pecadores!!! Filhos do demônio!! Gritou um evangélico isolado em meio à multidão. Um herói. Todos riam, ignorando o homem grisalho com a bíblia na mão. O homem gritava tanto que ficava vermelho. Quando danou a pular, um guarda sorridente falou:
- Vocês têm inveja porque não têm Papa. Foi o balde de água fria. Cabisbaixo, o crente saiu de fininho, subindo o pequeno morro e indo para sua casa, planejar a vingança que os evangélicos teriam mais de dez anos depois, roubando muitos católicos para seu front.
De repente, uma movimentação, lá longe, gritos, palmas, um êxtase!! Ele estava chegando, o Papa-móvel. Palmas, chapéus voando, histeria, lágrimas e mulheres desmaiando. Parecia um show de rock, meu Deus, um inferno!!!
Jamais me esquecerei da cena, guardada em minha mente como a mais cínica das memórias: um segundo, levou o papa-móvel ao passar pela multidão. O som inesquecível: VVVVVVVRRUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMM!!! Deveria estar a uns 120km, lembro-me apenas de algo vermelhinho, um pedaço de túnica - ou seria um chapéu de Papai Noel? Quiçá o gorro do Saci? Passou mais rápido que a minha fé na igreja, o papa-móvel. Todos ali, estáticos, tentando entender... vimos ou não vimos? Era ele mesmo? Sim, era ele. Então alguém se lembrou:
- Vamos ver na TV, gente!!!
Mais correria, as pessoas se dispersando, se atropelando...
Novamente alguém disse:
- Como ele é lindo, que paz, que calma...
- Ele é um santo...
Outros:
- Já me sinto melhor da úlcera!!
- Jamais me esquecerei desse momento!!
Ninguém gostou quando eu disse que não tinha visto nada, que foi muito rápido.
- Tem de levar esse menino na missa, dona Adelina! Disse o português ameaçador para minha mãe, que me deu um tapa ardido de frio quando comecei a gargalhar, pensando em como seria a gira de Exu, mais à noite...
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Não ia falar nada, ia deixar quieto, mas vai lá...
Fui numa padaria, no intervalo de uma gravação...
Muitos se aglomerando, prá ver a chegada do "Papa novo". Confesso que foi só o que vi na TV, depois acompanhei as notícias pelo jornal e pelas revistas.
- Quero quatro pãezinhos queimados - nada de pãozinho cru, chefe!! - manteiga e um quarto de pó, daquele moído na hora ali.
- Olha lá, o ôme chegando...
- (Tédio...) E quero um leite c...
- Nossa, ele até que desce as escadas do avião bem rápido, né?
- Quanto é essa rosquinha?
De repente, um rugido de indignação futebolística. Em uníssono, bêbados, clientes (sim, bêbados são clientes também, mas é que tinha um pessoal tomando lanche), vagabundos e outros, curiosos gritaram:
- Mas como?? Ele não vai beijar o chão?!!???
- Sacanagem, pôrra!! Desprezou nosso país!!
- Beija!! Beija!!
Nada de beijo. Alguém argumentou que aquela era uma prática do papa anterior, mas ninguém ligou. Ficou uma mágoa no ar.
Sorrateiramente um bêbado baixinho, inchado, sujo e cambaleante chegou na frente de todos. Olhou fixamente prá tela, colocou as mãos nos joelhos, balançante. Piscou duas vezes. O Papa começava seu pronunciamento... O homenzinho apontou o dedo, bem em cima do nariz do pontífice.
- LADRÃO!!!
Risadas se misturaram com indignação.
- Não chama o Papa de ladrão, Zé!!!
- O ôme é santo!!!
- LAAAADRRÃÃÃÃOOOOO!!! ELE É LADRÃO!!!
Deixaram prá lá. O balconista entregou meu pacote. Quando abri, haviam dois pãezinhos brancos, um sabonete e uma lata de ervilhas.
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Não, eu realmente não ia falar nada dele. Confesso que não vi, não quis ver - na TV - o lixo falsificado de informações sobre esse homem, mas estava lá, no centrão, pagando as contas, quando vi a imensa multidão na Líbero Badaró. Pensei comigo mesmo: se vi um, na minha infância, mesmo que por segundos, por que não ver dois? Afinal, quanto valem dois segundos de Papas? Quantos Papas se vêem ao vivo numa vida?
Fiquei lá, esperando, esperando e pude constatar a profundidade da ilusão de nossos dias: não há papas, não há mídia, não há exército nem policiais nem Rede Glóbulos. Há apenas poder. Força bruta silenciosa, violência invisível, truculência psicológica na multidão, no tamanho do guarda, na câmera do reporter, nos militares nas motocicletas, no dinheiro gasto, na submissão da massa. Tudo por um fio. Tensão disfarçada em fé. Tesão escoado na procura precoce da esperança de alguém único que compreenda os mistérios de Deus no mundo. Lembro-me dos rostos puros de freiras e freis franciscanos anônimos. Lembro dos óculos do fiel da corrente carismática. E tinham uns caras vestidos de cruzados, de botinas, verdadeiros skinheads de Deus, posturalmente antagônicos à imagem de Jesus Cristo. Quem?
Finalmente o Papamóvel passou. Devagar, desta vez. Vi bem o rosto do homem. Não baixei os olhos, queria entender, queria saber de seu coração. Como você nos vê aí de cima? Saiba então que entendi parte do plano... A massa, os prédios, a chuva de papéis picados, as bandeiras, os gritos, os soldados, as armas, tudo muito familiar. Sim, senhores, nada de religiosidade, nada de espiritualidade, nada de fraqueza, matéria, matéria, matéria. Ali, naquele momento, em todos os segundos, o pontífice reina, por um único motivo: Assim como o Império Galáctico do cinema, o Império Romano ainda vive, por dentro dos sapatos escarlates!!
Habemus Sith!!
Bom, falei. Vi dois papas em minha vida... e torço realmente para que venham logo o terceiro, o quarto, o quinto...

Um comentário:

woody disse...

Olá!

E estudei em colégio de padres, por coincidência o de São Bento, o mesmo onde fica o mosteiro que hospedou o papa e, talze por isso mesmo, me identifiquei com isso:
"não há papas, não há mídia, não há exército nem policiais nem Rede Glóbulos. Há apenas poder. Força bruta silenciosa, violência invisível, truculência psicológica na multidão, no tamanho do guarda, na câmera do reporter, nos militares nas motocicletas, no dinheiro gasto, na submissão da massa. Tudo por um fio. Tensão disfarçada em fé".

No meu caso, cheguei a esta conclusão depois da morte do Papa Paulo VI. O pior para mim, em especial, é que acredito em Deus, só que as igrejas estão transfomando fé em dinheiro e dinheiro é poder.